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Nem pensa, só vai

05.08.2015

 

Ninguém sabe porque a galinha atravessou a rua. Vamos continuar não sabendo (até o dia em que ela mesma contar). Mas e porque o corredor atravessou a rua, arriscando sua própria vida, com o semáforo prestes a ficar verde para os carros, você sabe?  Por que não simplesmente aguardar o sinal fechar de novo como todas outras pessoas normais? Tentarei responder essa questão que assola a humanidade. Se você nunca passou por isso, exercite sua empatia, calce seus tênis, amarre os seus cadarços e assuma o lugar do corredor.

Tudo começa com a análise do cenário: faltando uns 50 metros para chegar até a faixa de pedestres, você já começa a fazer as contas de quanto mais rápido tem que correr para atravessar a rua com folga no sinal vermelho, ou diminuir o passo pra sincronizar sua chegada na esquina com o semáforo fechado. Alguma daquelas fórmulas de física e matemática do colégio devem servir para ajudar: aceleração, sorvete, bhaskara... “Atravesso na hipotenusa? Ou dou a volta nos catetos?” Pra evitar um capote, melhor deixar as contas de lado. 

Semáforo aberto para carros quando você vai atravessar também é um sinal para você: sinal de que nem tudo na vida acontece na hora que você quer. Bom, quando não der pra desviar desse desencontro de timings e o sinal abrir justo na hora que você for cruzar para o outro lado correndo lindamente, você tem algumas opções:

  • Parar e esperar, o que você se recusa a fazer pra não perder o ritmo;

  • Correr no lugar para se manter aquecido, enquanto todas as outras pessoas, que também esperam o sinal abrir para os pedestres, te olham com aquela cara de interrogação pensando “sério que essa pessoa não pode esperar 1 minuto quieta no lugar?”;

  • Virar a esquina, contornando o quarteirão, e atravessar assim que o movimento dos carros diminuir... 

Mas cadê a emoção disso, minha gente?

 

Nenhuma das opções anteriores é tão desafiadora quanto atravessar a rua quando o semáforo está prestes a ficar verde. A trilha sonora do momento é uma mistura do som dos carros acelerando e a música do programa Tentação do Silvio Santos (lembra? “Não sei se vou ou se fico, não sei se fico ou se vou”). E então num bem-me-quer, mal-me-quer adaptado para “dá tempo, não dá tempo, dá tempo, não dá tempo...”, o que seria a última pétala da margarida é seu último passo na calçada. Você tem um estalo e... Quer saber? Nem pensa, só vai!

Agora não tem mais volta. Você corre como se estivesse sendo perseguido por 3 pitbulls e alguém querendo roubar seu rim. Fecha os olhos e lembra da sua calopsita e do peixe beta que você matou com 9 anos porque deu comida demais. Pensa no quanto sua mãe ficará decepcionada se o pior acontecer, já que um dos primeiros conselhos que ela te deu na vida foi “só atravesse a rua com o sinal vermelho e sempre olhe pros dois lados”. Você lembra que ainda não escreveu seu testamento e se pergunta quem vai herdar seus bens: suas coleções de discos de vinil, gibis e de copos de shots...

 

Ufa, deu tempo.

 

Passaram-se 4 segundos que entraram pra lista de momentos de maior adrenalina na sua vida e você respira, ainda ofegante, com aquela sensação de missão cumprida. Quem vê de longe acha que é só mais um suicida. O que o resto do mundo não faz ideia é que por trás de cada travessia dessa existe um tiro de 10 metros não planejado, em que você quebra seu recorde de velocidade e vence a luta do homem contra a máquina. Claro que o sucesso dessa empreitada muitas vezes depende da cordialidade dos motoristas, da sua sorte de não pisar em nenhum buraco e tropeçar no meio da rua, e do fôlego que você ainda tem pra correr no ápice do seu limite, mas um pouquinho de emoção no trajeto não faz mal a ninguém, não é mesmo?

 

PS: crianças, não tentem isso em casa. Ou melhor, nas ruas.

 

  

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