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O meu número 1

09.08.2015

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Ninguém melhor pra abrir o Pelotão de Elite do Vou Corrindo do que ele: meu pai. Esse da direita na foto aí em cima deixa os quenianos no chinelo. O homem de quem eu herdei a destreza de contar piadas ruins e o humor para chorar de rir de todas elas. Aquele que me instigou a adotar hobbies e gostos que hoje fazem parte de mim: fotografia, viagens e corrida. Hoje ele tem 55 anos, e já correu mais de 55 quilômetros seguidos. Se for falar de andança então, já percorreu a idade em quilômetros incontáveis vezes.

Maaas, antes desses quilômetros todos, o seu Rafael era a caricatura do Homer Simpson em forma de pessoa (só que com menos bebidas alcóolicas e junkie food). Careca, barrigudinho... olha só:

Meu pai antes da corrida (Pai, não me mate por isso, te amo!)

 

A história do meu pai com a corrida começou em 2004. Depois de uma crise de stress pesada por causa do trabalho, nas próprias palavras dele: “Sua mãe me tirou da cama e me levou pra caminhar com ela. Sempre tinha bastante gente caminhando na avenida do Machado. De vez em quando aparecia um ou outro correndo aí eu pensei: por que não trotar um pouquinho? Aí fui. 1 quilômetro, 2 quilômetros, e aumentando... com um tênis da Rainha com um amortecedorzinho no calcanhar.” Com esse tênis, teve “crise” de stress de novo, mas dessa vez, no músculo, por atividade física. Comprou um tênis adequado e ninguém segurou o homem depois disso. Pegou o gosto pela corrida e em 2007 foi correr sua primeira Meia Maratona, em São Bernardo do Campo. Foi de teimoso, estava lesionado na época, mas resolveu tentar mesmo assim. Não passou do aquecimento, viu não tinha condições e desistiu de correr a prova. “Aquela prova tá engasgada na minha garganta até hoje. Vamos combinar de ir ano que vem?”. Agora que meu irmão mora lá em São Berlondres, acho que vamos mesmo.

Apesar dessa Meia Maratona não ter sido nem iniciada, ele não parou. Treinava de madrugada, com o sol nem pensando em aparecer. Meu pai já deve ter corrido por todas as estradas que saem de Pouso Alegre (o que fez com que minha mãe perdesse vááários cabelos e noites de sono). 20 quilômetros até a Borda, 30 quilômetros até Camanducaia, 50 quilômetros até Cambuí, 63 quilômetros até alguma cidade que eu não lembro e não vou perguntar se não ele vai perceber que estou escrevendo esse texto. Foi a pé de Pouso Alegre à Aparecida do Norte. Já foi de norte a sul do Brasil pra correr: Maratona de Recife e Maratona de Porto Alegre. No “quintal” de casa, estava presente em todas as provas que conseguia se não tivesse um casamento pra fotografar no dia anterior, ou uma nocauteadora gripe que o derrubasse e o obrigasse a desistir da prova. 

Pouso Alegre, uhuuul, na São Silvestre de 2007

 

Tantos quilômetros assim fizeram com que meu pai saísse do estereótipo de pai Homer Simpson e fosse para o estereótipo Drauzio Varella. Ele ficou bem mais preocupado com a saúde, igual o Drauzio, mas é BEM MAIS JOVEM, e mais bonito, e mais esbelto! (Na verdade acho que não foi uma boa comparação, pai, desculpa. O senhor é muuuuito mais bonito que o Drauzio!). Acho que a partir de 2007, em TODAS as datas comemorativas a minha mãe falava pra gente dar roupas de presente pro meu pai, porque nenhuma roupa da época pré-corrida servia mais.

Com esse exemplo em casa, vendo as mudanças que a corrida gerou na vida dele em todos os sentidos, foi natural que aos poucos eu seguisse seus passos. Demorei, mas em 2013 fui atrás dele. Mesmo que eu ainda não me sentisse segura pra correr nem 5 quilômetros, meu pai me inscreveu com ele na Meia Maratona Internacional de São Paulo. Eu na categoria de 5km e ele na de 21km.  E então ele criou uma monstrinha.

 Família que corre unida, permanece unida. :)

 

Acidentes no percurso acontecem. Em 2014 meu pai sofreu um acidente de moto (que aliás, ele resolveu aprender a andar com 50 anos), e isso o deixou fora das ruas temporariamente. Fraturou a tíbia, teve que colocar pinos, placas e todo o resto que apitam num detector de metais. Deu medo, viu. A corrida já fazia tanta parte da rotina dele que achei que ele pudesse entrar em depressão. Mal sabia eu que a corrida tinha o deixado tão forte, tão decidido, que ele encarou esse contratempo de letra e sabia que era questão de tempo pra voltar a andar, e depois correr. Tratou da sua recuperação e voltou aos poucos ainda em 2014, correndo distâncias menores,  com placa e pino mesmo.

Quando eu disse que ia correr a Meia Maratona do Rio, prova que ele ainda não fez apesar de já ter se inscrito (culpa da gripe), ele se tornou meu coach oficial pra chegar nos 21km. Nos fins de semana em que eu voltava para Pouso Alegre, ele treinava comigo, me guiava e me levava a desafios cada vez maiores. Subidas das MAIS íngremes e que eu achava que não ia conseguir, a treinos de meio dia com sol a pino, que eu achava que não ia acabar viva. No fim, esses treinos sempre terminavam bem (na medida do possível, claro!). Se eu não vinha pra Pouso Alegre, a consultoria era pelo telefone mesmo. “Pai, eu preciso comprar um frequencímetro?”, “Pai, quantos kms eu faço hoje?”, “Pai, meia de compressão ajuda mesmo?”, “Pai, será que eu corro algum dia na semana da prova?”, “Pai?”, “Pai?”...

Como as placas e os pinos incomodavam um pouco, recentemente ele resolveu fazer uma outra cirurgia para extraí-los, já que as cartilagens e ossos do tornozelo estavam recuperados. Por isso, ele está fora das ruas de novo. Mas eu, ele e o resto das pessoas que o conhecem sabemos que assim que o médico liberar ele vai voltar a sair correndo e cumprimentando meia Pouso Alegre (entre conhecidos e desconhecidos). É questão de tempo pra que a gente corra juntos de novo. 

Se ele não for o único responsável pelo meu envolvimento com a corrida, deve ter uma parcela de uns 83,7% de culpa. E tudo que eu tentar agradecer, ainda será pouco. Obrigada por ter me ajudado a dar meus primeiros passos, pois sem eles correr seria impossível. Obrigada por ter incentivado a nossa família a sempre praticar esportes e ser o exemplo disso. Obrigada por ter me dado meu primeiro tênis de corrida e ter me inscrito na minha primeira prova de rua. Obrigada por ter me dado a mão em caminhos em que eu estava insegura, por ter me guiado e dado aquele empurrãozinho pra que alçasse desafios que eu nem sabia que era capaz de completar. Obrigada por me mostrar que não tem idade pra (literalmente ou não) correr atrás de um sonho, e quem define o limite de onde queremos chegar, somos nós mesmos. Obrigada por me ensinar que às vezes temos que ter paciência e respeitar o limite do nosso corpo. Obrigada por ser meu maior entusiasta, meu exemplo na corrida e na vida. É a você quem eu dedico todos os quilômetros que eu corro, pai. :)

 

Pra finalizar, enquanto eu tentava escrever esse texto sem que meu pai percebesse, ele contou uma das piores piadas que eu já ouvi na vida:

“Você sabia que quando a gente canta o hino ao contrário ele não é mais hino? Porque é voltano”.

 

Agora dá pra entender porque eu Vou Corrindo? Com essa eu me despeço.

 

Um beijo

 

Tchau :D

 

 

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