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A corrida em que eu fui assaltada

27.11.2015

 

Sempre pensei (e brinquei) que como treino corrida, se algum dia alguém tentasse me assaltar, eu fugiria correndo. Igual o Papa-Léguas foge do Coyote sabe? E no fim o Coyote sempre se ferra? Infelizmente essa cena que eu imaginava não aconteceu exatamente assim na realidade...

Desde 2012, quando me mudei para São Paulo e comecei a correr, faço a maioria dos meus treinos de rua no Ibirapuera à noite e sozinha. Vou correndo de casa até o parque, trajeto de aproximadamente 2 quilômetros, dou uma ou mais voltas lá dentro, e volto. Se não estiver muito cansada, volto correndo. Na grande maioria das vezes, como prefiro o percurso do parque ao percurso da volta, que é uma subida ingrata, volto andando. Carrego comigo uns trocados e meu celular, que nunca abri mão, pela música, pelo aplicativo para monitorar a corrida e pela segurança de que caso algo aconteça comigo, posso ligar pra alguém me socorrer. 

Em três anos morando em São Paulo, eu era aquela que sempre comentava orgulhosa "comigo nunca aconteceu nada =D" se o assunto na roda eram crimes ou violência na cidade. E a gente nunca acha que vai acontecer com a gente. E espera que nunca aconteça. 

Eu tinha (e ainda tento me livrar...) o PÉSSIMO costume de não largar do celular nos meus trajetos. Indo e voltando do trabalho, no caminho do mercado pra casa, na volta da academia e na volta da corrida. O tempo todo eu estava ou respondendo alguém no WhatsApp, ou pulando do Facebook pro Instagram e pro Twitter, ou vendo algum vídeo no Youtube, oooouu postando nas redes sociais a corrida que eu tinha acabado de completar. 

O mundo foi me dando sinais. Cansei de ouvir "larga do celular enquanto você anda" e "quando você tá no celular você esquece do resto do mundo" dos meus familiares quando estava em Minas. Um dia voltando da academia, vidrada no celular, fui interrompida por uma moça me cutucou e disse que tinham acabado de assaltar uma menina naquele lugar. Outro dia, ao voltar  de uma corrida, também no celular, um homem me assustou quando na verdade só queria me alertar que um cara do outro lado da rua "estava me fitando e era melhor eu ficar esperta". Não dei bola pra ninguém e segui vivendo minha vidinha online a todo momento.

Até que no dia 2 de julho desse ano eu fui correr no Ibirapuera. 2km até lá e mais duas voltas no parque já totalizaram os 10km que eu pretendia fazer. Assim que saí do parque, comecei a andar e passei pela Passarela Cicillo Matarazzo, lugar que passava todos os dias, fica em cima da Avenida 23 de Maio. Foquei no celular, como sempre, e um cara se aproveitou que eu estava completamente desatenta do mundo real, parou na minha frente e me abordou:

 

Assaltante: Passa o celular, só o celular!!!!!!!

Nessa hora nem passou pela minha cabeça que talvez ele quisesse só o número... Vai que, né?

A corredora distraída, vulgo, eu: Tá bom, tá bom, um minuto!

 

Eu que me achava uma pessoa super equilibrada, desmontei e abri a boca de tanto chorar. Entreguei o celular e o fone de ouvido foi de brinde. Me sobrou a braçadeira vazia. E nem deu tempo de salvar a corrida no aplicativo da Nike =( 

Assim, praticamente em uma brincadeira de passa-anel, passei meu celular para a mão dele e ele saiu correndo. Eu segui meu curso para o lado oposto... correndo, chorando e com o filme da minha vida passando na cabeça. 

Não sei até hoje se tinha mais gente na passarela nesse momento e se o assaltante estava armado ou não. Na minha posição, nem valia correr o risco de descobrir. Já bastava o fato de estar em cima da passarela... imaginei que qualquer empurrãozinho que o cara me desse,  se eu não colaborasse com ele, me levaria pro chão da 23 de Maio e era uma vez a Van. Ainda tenho muitos quilômetros pra correr e o celular, por mais que eu tenha me esforçado para comprar, se tornou muito pequeno diante de todos os outros riscos.

Corri chorando até o posto de Polícia na Sena Madureira e conversei com dois policiais. Eles me orientaram que esse tipo de crime é registrado na delegacia online e iam tentar localizar o assaltante com base na descrição que eu dei. Claro que não iam encontrar, mas pelo menos eles me confortaram. Cheguei em casa acabada, avisei meus pais e meus amigos, fiz o boletim de ocorrência e decidi que a partir daquele dia eu mudaria de postura.

Passei uns dias traumatizada com o ocorrido, treinando só na academia, mas como eu AMO esteira (só que não) voltei a correr na rua, no mesmo trajeto e à noite. Como precaução, comprei um cinto para guardar o celular durante a corrida (é bem mais discreto que a braçadeira) e só mexo nele quando estou em lugares fechados. Na rua, procuro estar atenta a tudo que acontece ao meu redor.

Se eu posso dar um conselho a você, bem ao estilo de "faça o que eu digo, não faça o que eu fiz", é que não há nada nas redes sociais que não possa esperar. Seus amigos não vão deixar de falar com você se você demorar mais meia hora para responder no WhatsApp. As atualizações no Facebook, Twitter e Instagram só ficarão mais antigas, mas ainda estarão lá. Os vídeos no Youtube também. Ninguém faz questão de ver que sua corrida acabou no exato instante em que você parou de correr. Se você estiver lendo esse texto agora no meio da rua, pode guardar seu celular e continuar depois, ele também estará aqui quando você voltar.

O que não espera é a vida fora do smartphone. Os seus amigos na mesa do bar te contando as novidades não esperam. O prazo que seu chefe deu para atualizar aquele relatório não vai esperar. O seu cachorro te pedindo atenção na sala não espera. Sua família na mesa do jantar não espera. E os assaltantes, bem... você viu que eles não só não esperam, como se aproveitam disso.

Enquanto você vive sua vida online muita coisa acontece independente do sinal do wi-fi ou do 3G. Que tal se desligar um pouquinho?

 

 

 

 

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