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Lesões e desilusões

18.02.2016

A não ser que estejamos falando de um masoquista, ninguém gosta de se machucar. Seja fisicamente, seja emocionalmente falando, é algo que sempre tentamos evitar. Pode não ter acontecido com você (que sorte a sua, aliás), mas quem não tem um amigo com o coração partido, ou conhece um corredor com um joelho ferido?

Em novembro do ano passado comecei a sentir dores no joelho direito. Umas pontadas doídas e profundas que me faziam parar de correr no primeiro quilômetro. Receosa de que fosse algo sério, fui ao médico. "Pelo menos uns 5 corredores com dores no joelho aparecem no meu consultório todo dia". Tudo bem que ele era um especialista em joelho, então super normal que só pessoas com dores no joelho fossem ao consultório dele, mas o ponto é que no universo das corridas isso é mais comum do que a gente imagina. 

Dentre tantas possibilidades de lesões ou fraturas, a aposta do doutor era que fosse Síndrome da Dor Patelofemural (esse nome me assusta até hoje). É uma dor na parte anterior do joelho causada pelos traumas repetitivos da corrida ou desalinhamento da patela. Fiz uma ressonância magnética e, até o retorno no consultório, a recomendação foi "evite correr". Durante um mês, evitei a corrida. Ô mês demorado pra passar. Retornei ao médico e por sorte foi apenas uma inflamaçãozinha gerada pela sobrecarga no joelho. Para prevenir que não aconteça de novo: fortalecimento da parte anterior do joelho e músculos abdutores da coxa. Exercícios de isometria ajudam no alinhamento da patela, também. Não precisei de fisioterapia, nem de mais repouso, nem de cirurgia, ufa.

Há uns bons anos atrás, uma paixonite que eu erroneamente achava ser o amor da minha vida me machucou. Depois de muito lenga-lenga, flertes e promessas futuras, combinamos de nos encontrar em uma festa de aniversário de um amigo em comum. Fui à festa e de cara encontrei ele com outra, todo apaixonado (por ela). Depois de uns dias, ele me pediu desculpas com algo do tipo: "Van, eu descobri que eu queria algo sério, sim... mas não necessariamente com você. E ela chegou primeiro". Nesse dia, muito antes de eu cogitar que seria uma corredora (mesmo amadora), me deu vontade de sair correndo e chorar no primeiro banheiro que eu encontrasse. Existe médico especialista em curar lesão de paixonite aguda? Fisioterapia pra recuperar emocionalmente o coração? E cirurgia pra tirar o moço de lá de dentro do peito, tem? Na época eu achava que ia precisar de tudo isso.

Comparando as duas situações, fiquei pensando sobre as semelhanças entre uma lesão física e uma desilusão amorosa. Os sintomas são basicamente os mesmos: dói, a gente chora, se decepciona. Fica com raiva da pessoa, da gente mesmo, do joelho, do tornozelo, do tênis. Quer correr mas não pode. Quer estar com alguém mas não está. Parece que não vai passar a dor e que a gente não vai se recuperar nunca. Mas se recupera, sim. A boa notícia é que entre corações partidos e joelhos, panturrilhas e tornozelos feridos, salvam-se todos. 

Talvez você só precise de repouso por um tempo. Evitar a corrida por um mês, ficar sozinho, conhecer melhor seus limites e suas vontades, entender o que aconteceu. Se o caso for mais grave, fisio e terapias no bar com os amigos são muito recomendados. Quando você voltar à ativa, vai estar mais forte (e mais cauteloso). Nós tentamos nos prevenir a todo custo. Fortalecemos o músculo da coxa daqui, mudamos a rotina de treino dali, trocamos os tênis. Nos afastamos das pessoas, nos blindamos e nos tornamos emocionalmente indisponíveis. Assim fica impossível se machucar, né? Só que não. Mesmo com toda essa proteção, ainda não é certeza de que você vai passar ileso por todos os quilômetros que vêm pela frente.

No fim das contas, só se machuca quem corre. A gente pode ficar sentado na arquibancada, só olhando, vendo a vida passar como se fosse o Bolt em uma prova de 100 metros rasos do atletismo. Porque a vida passa rápido assim MESMO! Estaremos com todos os músculos, ligamentos, ossos e coração em perfeito estado. Ou a gente pode entrar na pista e correr atrás da nossa felicidade, no sentido literal e figurado da expressão. Eu prefiro correr, mesmo sem saber se vou ganhar ou perder, mesmo que alguém possa chegar antes de mim (como já aconteceu) e com risco de levar uns tombos e me machucar no caminho. Depois eu me curo.

E você? Quer ficar sentado ou vai correr?

  

 

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