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Desculpe o transtorno, imagina se a Clarice corresse?

14.09.2016

Conheci ela no parque. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém num pique-nique na grama do Central Park no outono de Nova York. Mas o parque em questão era aquele em que todas as assessorias de corrida têm treinos nas terças e quintas – o Ibirapuera. Ela corria. Minha irmã corria. Eu não corria, mas ia caçar Pokemon. Ela estava lá. Correndo. Nunca vou me esquecer: a música era "Ela não anda, ela desfila", do MC Bola. 

Quando as pessoas aceleravam o passo, ela ia devagar. Quando iam devagar, ela dava tiros. Quando corriam em um sentido, trombavam com ela que vinha pelo sentido oposto. Os olhos, sempre imensos e verdes, deixavam claro que ela era míope, corria sem óculos e não enxergava nada. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho. Já falei que ela não enxergava nada.

Passamos algumas madrugadas comentando nos grupos de corrida do Facebook ao som de da playlist "Vou Corrindo MIX" no Spotify. De lá, migramos pros comentários no blog. Do blog para as directs no Instagram, do Instagram pro Snapchat, do Snapchat pro WhatsApp. 

Começamos a treinar juntos. Ela já corria 21km e eu só 10, mas parecia que a corrida pra ela começava ali. Nos 10. Treinávamos todos os dias. Alguns mais de uma vez. Fizemos todos os tipos existentes de treino. Corremos mais do que mandava a planilha porque a corrida tava boa. Nos inscrevemos em provas sem pesquisar se já tínhamos outra no mesmo fim de semana. Corremos juntos no asfalto, montanha, praia. Compramos uma dúzia de tênis novos e junto com eles um relógio com GPS. Corremos mais de 2000 quilômetros só nós dois —acabei de ver no relógio. Sofremos com os coachs, rimos com os pipocas. Viajamos o mundo dividindo a mala cheia de roupa suada pós prova. Das dez melhores provas que fiz, sete ela correu comigo. Nas outras três, me incentivou. Aprendi o que era fartlek e também o que era altimetria, BPM, limiar de lactato, condromalácia patelar e outras expressões que muita gente não sabe porque muita gente não teve a sorte de correr com ela. 

Um dia, ela decidiu que não queria mais correr comigo. Acabou. E foi mais difícil que completar um IronMan. Choramos mais que no final da nossa primeira maratona juntos. Mais que quando perdemos a inscrição daquela prova gratuita. Até hoje, não tem um lugar que eu corra em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido um filho, eu penso. Correria empurrando o carrinho de bebê. 

Essa semana, pela primeira vez, corri uma prova que a gente já fez juntos — não por acaso uma maratona. Achei que fosse quebrar no muro dos 30. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter completado mais uma grande corrida. E de ter o resultado dessa prova documentado no site do organizador — e em tantas fotos de sites de cobertura de corridas, medalha e número de peito. Não falta nada.

 

Texto adaptado do "Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice" do Gregório Duvivier. Link original aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2016/09/1812342-desculpe-o-transtorno-preciso-falar-da-clarice.shtml

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