© 2023 por Fazendo Barulho. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook Clean Grey
  • Instagram Clean Grey
  • Twitter Clean Grey
  • YouTube Clean Grey

Uma medalha de Platão

15.01.2016

Era pra ser um dia como outro qualquer. ​Desses que a gente acorda, treina, vai pro trabalho, mexe em umas planilhas, faz umas ligações, volta pra casa, janta, lê um livro e dorme. Nada demais. Mas já começou diferente. Acordei atrasada, coisa que raramente acontece, provavelmente por causa do excesso de trabalho do dia anterior. Troquei de roupa às pressas, lavei o rosto mais ou menos. Prendi o cabelo da maneira mais esdrúxula possível, peguei uma Belvita e um Toddynho pra comer no caminho e rumei ao parque para honrar a meia hora de treino que o sono não tinha me roubado. 

Ainda dormindo praticamente, o movimento de coçar os olhos para limpá-los era praticamente ritmado com as passadas que eu dava. Eu não era a única no parque. Aliás, corredores nunca estão sozinhos, mesmo que saiam para correr sozinhos. Outros doidos desconhecidos me acompanhavam na corrida "matinal" das 6 da madrugada. Dentre esses doidos, um me chamou a atenção.

Não sou uma mulher desesperada para encontrar alguém. Já me acostumei com as tias perguntando dos namorados (que nunca existem) nos eventos de família. Não ligo mais pro fato do meu irmão mais novo estar noivo e eu nem perto disso. Nem me importo por estar beirando os 35 anos ainda solteira. Aprendi a viver comigo mesma, isso me basta e me diverte. Mas, estou sempre aberta a novas oportunidades e não deixo de reparar no ambiente. Mesmo que esse ambiente seja o parque. Vai que...

Aquele cara de regata verde limão tinha alguma coisa que não sei até hoje o que era. Pra começar, ele ia contra todas as características do estereótipo de homem que costuma me atrair. Gosto de morenos, e ele era loiro. Estatura mediana, e ele era alto. Com barba, e ele sem barba. Foi tudo tão estranho que até a minha aversão a regatas eu esqueci. É sério, não suporto regatas. Mesmo em corredores. Mas, como eu disse, ele tinha alguma coisa.

Dizem que a gente tem que estar preparado pra conhecer o amor da nossa vida a qualquer momento... mas pô! Justo no dia que eu mal penteei o cabelo? Enfim, abstraí. Ele veio correndo em minha direção e, como sempre acontece quando estou diante de situações assim, eu não soube o que fazer. Passou pela minha cabeça perguntar as horas (mas eu estava de relógio), pular na frente dele, tropeçar de propósito... Se Leonardo nasceu de uma pisadela e um beliscão, um tropeço e uma trombada na corrida bem que poderiam render o próximo anti-herói da literatura brasileira. Nos aproximamos e em um piscar de olhos... ele passou por mim. Sem nenhum olhar, nenhum charme, nenhum NADA da parte dele.  E eu travei.

Pensei em dar meia volta para acompanhá-lo, mas quis me fazer de difícil. Torci para que ele continuasse no mesmo sentido e nos cruzássemos novamente para então eu ter a chance de tomar uma atitude. Por sorte, ainda restavam 15 minutos de treino, o suficiente para eu dar mais uma volta. 

5 minutos se passaram e um arco-íris de regatas se formou na minha frente, mas nada do verde limão.

8 minutos e uma mulher carregando um carrinho de trigêmeos me ultrapassou, mas nada do verde limão.

12 minutos e um cara fantasiado de Jack Sparrow, correndo como tal, passou por mim, mas nada do verde limão.

15 minutos... hora de ir embora.

Constatei que paquerar no parque é a coisa mais complicada que existe. Admiro quem consegue fazer isso e principalmente, obter um resultado de uma investida em meio ao suor e respirações ofegantes. A minha volta para casa foi um dos momentos mais reflexivos que já tive, mais uma vez me arrependi do que eu não tinha feito. As semanas se passaram e eu nunca encontrei o tal verde limão de novo. Talvez ele tenha mudado de cor, de parque, de horário, de cidade. Se machucou ou simplesmente perdeu a vontade. Já eu perdi a oportunidade. Se era pra ser o amor da minha vida e eu o deixei correr na direção oposta, nunca saberei. Minha insegurança e timidez me impediram de descobrir. Talvez fosse, talvez não. Só sei que por essa corrida, mereci uma medalha de Platão, pois tudo que consegui foi um romance que só existirá no plano da fantasia.

A não ser que ele apareça qualquer dia...​

 

 

 

 

Please reload

Modalidades